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1. Meritocracia e Democracia

“Oriente é Oriente, Ocidente é Ocidente.” Hoje, porém, os dois se entrelaçam.

Todo mundo conhece as características contrastantes que dividem essas duas esferas de civilização: autoridade versus liberdade, a comunidade versus o indivíduo, os
ciclos das eras versus o progresso histórico, e democracia representativa versus, no caso da China, o governo de um mandarinato meritocrático. No entanto, também sabemos que a China se tornou a fábrica do mundo e o maior credor dos Estados Unidos.

Neste livro abordamos esses dois mundos que Rudyard Kipling, numa famosa frase, declarou que “nunca se encontrariam”, dentro deste novo contexto histórico em
que a China e o Ocidente estão mais intimamente ligados sem nunca terem deixado de ser enormemente distintos.

À medida que o Ocidente se afasta de seu secular domínio e o Império do Meio retoma seu sólido papel histórico, somos obrigados a olhar essa mudança de paisagem com lentes tanto ocidentais quanto orientais.

Se o leitor permitir a simplificação de algumas verdades fundamentais, a moderna mente ocidental tende a enxergar contradição entre opostos inconciliáveis como resolvível somente mediante o domínio de um sobre o outro. Seguindo os passos do filósofo idealista alemão Georg Wilhelm Friedrich Hegel,1 foi essa a abordagem de Francis Fukuyama2 quando argumentou o “fim da história”, uma vez que o fim da Guerra Fria representaria também o triunfo da democracia liberal sobre ouras formas de governança humana. No entendimento geopolítico ocidental, territórios e ideologias só podem ser ganhos ou perdidos.

A sabedoria convencional, porém não incorreta, do Ocidente é que, a despeito da impressionante realização de retirar da pobreza centenas de milhões de pessoas em apenas três décadas, o moderno mandarinato da nominalmente comunista China não é autocorretivo, o que implica que tampouco é sustentável. A menos que afrouxe suas rédeas autocráticas ao permitir mais liberdade de expressão e mais mecanismos democráticos, a fim de que haja mais prestação de contas e se ouça mais o que a população tem a dizer, a “dinastia vermelha” sucumbirá a uma decadência política terminal – com predomínio de corrupção, abuso de autoridade e estagnação –, assim como aconteceu com todas as demais dinastias ao longo da milenar história da China.

O que este livro observa de maneira não convencional é que, assim como vimos com o mercado financeiro, a democracia ocidental não se autocorrige mais do que o sistema chinês. Numa imagem espelho do desafio chinês, a democracia eleitoral de “uma pessoa, um voto” incrustada numa cultura de consumo baseada na gratificação imediata também está fadada à decadência política terminal a não ser que se reforme. Seguir o exemplo da experiência chinesa com a ordem meritocrática, estabelecendo instituições capazes de incorporar as perspectivas tanto de longo prazo quanto de bem comum, é crucial para a sustentabilidade do ocidente democrático. O argumento que vamos desenvolver neste livro é o de que restaurar o equilíbrio em cada sistema exigirá calibrar novamente as configurações políticas por meio de constituições mistas que combinem democracia esclarecida com meritocracia que presta contas.

 

2. Convergência e Divergência: Globalização 2.0

Os desafios resultantes da atual mudança no poder global, aliados a um rápido avanço tecnológico, são avassaladores tanto para os poderes que ascendem quanto para os que descendem. Todos os sistemas políticos estão de alguma forma experimentando desequilíbrio à medida que buscam ajustar-se aos sucessivos choques causados pela transição em curso entre o que chamamos de Globalização 1.0 e Globalização 2.0.

Nas décadas seguidas ao fim da Guerra Fria, a globalização liderada pelos Estados Unidos – a 1.0 – transformou o mundo de tal forma, por meio de um fluxo mais livre de comércio, capital, informação e tecnologia, que deu à luz uma nova fase: a Globalização 2.0.

“Nos últimos séculos, aquilo que um dia foi a periferia, primeiro da Europa e depois dos Estados Unidos, tornou-se o cerne da economia mundial”, diz Martin Wolf, analista do Financial Times. “Agora, as economias da periferia reassumem um papel central. Isto está transformando o mundo inteiro… isto é de longe o fato mais importante do mundo em que vivemos.”

O Nobel de Economia Michael Spence corrobora esse ponto de vista. Conforme diz, o que vemos hoje são “duas revoluções dando-se de maneira paralela e interativa: a continuação da revolução industrial nos países avançados e a do padrão de crescimento súbito que se dissemina fortemente no mundo em desenvolvimento. Poderíamos chamar essa segunda revolução de Revolução da Inclusão. Depois de dois séculos de divergência acentuada, um padrão de convergência toma lugar”.

Essa grande convergência econômica e tecnológica que resulta da Globalização 1.0 também dá origem a uma nova divergência cultural à medida que os poderes emergentes mais prósperos buscam nos seus fundamentos civilizacionais a contrapartida para a minguante hegemonia do Ocidente. Uma vez que a pujança econômica implica uma assertividade cultural e política, a Globalização 2.0, acima de tudo, significa interdependência de identidades plurais em vez de um modelo único para todos. As uma vez reinantes democracias liberais do Ocidente são agora obrigadas a interagir, em nível mundial, não apenas com a China neoconfuncionista, mas também com as particularidades da democracia de orientação islâmica existentes no arcabouço secular da Turquia, que se tornou um modelo atraente para a recém-emancipada rua árabe. Em resumo, o mundo está retornando “ao pluralismo normal” que caracterizou a maior parte da história da humanidade.

Historicamente, uma mudança de poder de tal magnitude normalmente termina em colisão e conflito. Mas, dada a integração intensiva trazida pela globalização pós-Guerra Fria, também traz possibilidades inteiramente novas de cooperação e polinização cruzada ao longo da paisagem civilizacional.

Estamos, portanto, em uma encruzilhada histórica. A forma como iremos nos governar, nas próximas décadas, nos âmbitos nacional e internacional determinará qual desses caminhos o século XXI haverá de seguir.

 

3. Harmonização

A governança inteligente é o novo software cívico que pode tornar mais compatíveis esses diferentes sistemas operacionais. Sua meta principal é buscar um equilíbrio harmônico nas questões humanas – entre responsabilidade e escolha pessoal, comunidade e indivíduo, liberdade e estabilidade, bem-estar e bem-ter, espécie humana e natureza, presente e futuro – com base na sabedoria do que funcionou melhor frente às circunstâncias do momento.

É certo que qualquer abordagem universal que surja das novas condições globais deverá pragmaticamente acomodar diversidade e níveis variados de desenvolvimento. A cooperação, que implica diferentes caminhos para a mesma finalidade, não a rigidez uniforme de um modelo único, é o meio para uma colaboração harmoniosa. Do desmoronamento da Torre de Babel ao colapso da União Soviética, a história tem nos ensinado que a diversidade é o caminho para a natureza humana.

Tal cooperação mutuamente benéfica é mais possível hoje que em qualquer momento anterior na história. Alguns cientistas que argumentam que a capacidade de partilhar conhecimento entre culturas, possível pelo “circuito de pensamento global” do nosso mundo conectado e pelo alcance planetário da mídia, é semelhante à “transferência genética horizontal”. Isso sugere que governar compartilhando conhecimentos em vez de pela diferenciação competitiva pode marcar uma “evolução da evolução”.

Quando unida à explosão do conhecimento na ciência e à revolução da informação, a necessidade de que toda a humanidade trabalhe junta pela sobrevivência alimenta a esperança de que nossa espécie supere o modelo primitivo e competitivo de evolução humana, o da “sobrevivência dos mais aptos”, e se encaminhe a um modo menos conflitivo e mais inteligente e cooperativo – “a sobrevivência dos mais sábios”. A governança inteligente, neste sentido, é a aplicação prática de uma visão do mundo mais evoluída.

Reverenciando a antiguidade histórica do Oriente, essa visão de mundo pode ser chamada de harmonismo. Talvez seja a alternativa do século XXI a uma noção estreita de “progresso” que, ao mesmo tempo em que propicia fantásticos saltos adiante, também acarretou os muitos danos derivados de suas ambições – extinção de diversidade cultural, vidas sacrificadas e a degradação do meio ambiente. O harmonismo não se opõe ao futuro e tampouco se propõe uma utopia em algum ponto final da história. Sua luta é, mais do que tudo, por um estado de equilíbrio.

 

 

 

4. Governança Inteligente em ação: G20

O Conselho para o Século XXI que se reuniu no México em maio de 2012 propôs uma abordagem híbrida para que o G-20 forneça bens públicos globais.

Primeiro, os acordos celebrados nas cúpulas fazem sentido no que tange a regulamentação financeira, fluxos de capital entre nações e resgate financeiro internacional impulsionados por uma “vigilância” forte e independente das economias do G-20 quanto a práticas que contribuam para os desequilíbrios. Nossas recomendações incluíram o estabelecimento de “sherpas de duas trilhas” (a permanente e a anual) para levar adiante as políticas e assegurar a sua continuidade de uma cúpula à outra, organizadas por meio da “troika” pelos presidentes atual, anterior e próximo do G-20, e a expansão da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico OECD, na sigla em inglês de forma a incluir as economias emergentes do G-20. Entre as tarefas da OECD com o G-20 estaria a mensuração dos fluxos de comércio de uma forma nova, levando em conta a distribuição global de produção que se dá hoje em dia (como na fabricação do iPad, ver capítulo 4) e seu impacto sobre emprego e comércio. Uma política global coordenada para reduzir os desequilíbrios deve basear-se em uma análise objetiva e compartilhada dos fatos ou haverá tensões e conflitos desnecessários.

Em segundo lugar, uma teia de redes nacionais e subnacionais deve ser fomentada, de modo que a provisão dos bens públicos globais – tais como o crescimento baixo em carbono para combater a mudança climática – venha de baixo, por meio de “coalizões dos dispostos” a trabalhar juntas para ir na direção de um limiar de mudança global.

Conforme proposto na reunião do G-20 realizada em maio de 2012, no México, na qual o presidente Calderón se concentrou no “crescimento verde”, arranjos como o Mecanismo para um Desenvolvimento Limpo, sob a égide do Protocolo de Kyoto, poderiam ser impulsionados. É, em essência, uma “troca global de commodities por licenças de emissão de carbono” que permite o comércio entre jurisdições nacionais e subnacionais que já tenham ou estejam planejando um sistema de comércio de emissões – tal como existe na Califórnia, Austrália e em Quebec, bem como em alguns estados europeus e províncias chinesas. Em definitivo, a liquidez que resultaria desse comércio encorajaria outras jurisdições a se juntarem.

Outra ideia discutida por nós era a de vincular o R-20, ou “Regional 20”, às metas estabelecidas pelo G-20 para a mudança climática. O R-20 foi fundado por Arnold Schwarzenegger quando ele era governador da Califórnia, e seus membros vão do estado de Gujarat, na Índia, até o Governo Provincial de Gyeonggi, na Coreia do Sul, passando por Puglia, na Itália. A ideia é que, mesmo se o progresso quanto à mudança climática e energia limpa seja prejudicado no nível da governança global ou do Estado-nação, os níveis subnacionais ainda poderão seguir em frente de forma a construir uma massa crítica que cresça de baixo para cima.

Além de assessorar o G-20, o Conselho para o Século XXI assumiu projetos em que pode exercer um impacto direto por meio de suas próprias redes de relacionamentos. Um exemplo é o de se guiar pelo argumento de Zheng Bijian a favor da “construção de uma comunidade de interesses” entre Estados Unidos e China, o núcleo da economia global, ao encorajar o investimento externo direto dos excedentes da China em infraestrutura e empregos nos Estados Unidos – de forma a, elegantemente, fechar o círculo de comércio e emprego e conter o aumento dos sentimentos protecionistas, ao mostrar que a Globalização pode significar trabalho tanto nos Estados Unidos como na China.

Quando Xi Jinping visitou a Califórnia em fevereiro de 2012, o governador Jerry Brown, falando como de um príncipe a outro (o pai de Brown também foi governador, enquanto o de Xi foi um alto membro do Politburo), sugeriu que a China talvez pudesse financiar o plano do sistema estadual de trem-bala, com custo de 90 bilhões de dólares, assim como investir em zonas “plug and play”* nas áreas mais pobres da Califórnia, onde o desemprego é maior, a exemplo de Central Valley e Riverside County.

Existe certa simetria elegante neste último esforço também. Quando Brown visitou a província de Guangdong no começo dos anos 1980,10 logo após seu primeiro mandato como governador, foi recepcionado pelo pai de Xi Jinping, Xi Zhongxun, que era então o governador de Guangdong. Xi pai, que era íntimo de Deng Xiaoping, era o cérebro por trás do então novo experimento da “zona econômica especial”, em Shenzhen. Ele estava em busca de investimento dos Estados Unidos!

Por meio de sua rede de contatos na Califórnia, tecidos pelo Think Long Committee e suas conexões na China, que chegam às autoridades mais altas da China Investment Corporation e a Zheng Bijian, o Conselho para o Século XXI foi capaz de facilitar o avanço desses projetos.

Esse projeto é só um exemplo de como um grupo da “sociedade civil global” como o Conselho para o Século XXI, junto com empresas e governo em diferentes níveis, pode ajudar a resolver as contradições de divergência/convergência e global/local no seio atual das mudanças de poderes.

Aplicar o paradigma de “transferência de competências, implicação e divisão na tomada de decisões” próprio da governança inteligente pode ajudar a constituir a “legitimidade primária” de que o G-20 precisará para lidar com os novos desafios globais.

A alternativa é um vácuo de poder, naufrágio e, por fim, a ameaça de conflitos destrutivos. Não existe prioridade maior para a governança global do que a de fazer o necessário para garantir que o momento presente se assemelhe mais a 1950 do que a 1910.